29 novembro, 2011

Vidas parte10

Enquanto ela terminava de preparar o jantar eu sentei-me na mesa da cozinha de mãos a segurar a cabeça. Aquela visão era tão familiar quanto a sua presença mas tudo na minha cabeça era agora um mar de confusão e eu sem saber o que pensar procurava as palavras certas para lhe contar da proposta que recebera.
Jantar na mesa e ambos sentados frente a frente lá me vou satisfazendo com aquele maravilhoso jantar, eu sempre gostei dos seus cozinhados, enquanto isso ela utilizava discursos cliché para meter conversa comigo, mas para mim era um dia de difícil comunicação e sem que ela ainda tivesse percebido eu estava focado num outro assunto.
Em tempos idos a sua companhia era o suficiente para me encher os olhos e tudo o resto, mas naquele dia nem isso me completava, não pela mudança de sentimento mas sim pela situação que havia mudado.
Respirando fundo resolvi que tinha mesmo de falar sobre aquilo que me ia na cabeça, eu não poderia esconder muito mais e assim, depois de um suspiro a minha voz uniu-se em uníssono e eu praguejei.
-Preciso mesmo de falar contigo.
-Sim, já me tinhas dito e eu já percebi que é importante, diz lá.
-Sim é de facto muito importante, mas independentemente de tudo e do quão bom isto pode ser para mim não deixa de ser difícil de me exprimir.
-Ui, ui, é mesmo sério.
-Não me interrompas por favor, o que se passa é que hoje tive um dia diferente começando pelo café contigo e depois lá no trabalho.
-Diferente? Comigo porquê?
-Sabes bem que já não tomamos café juntos á muito tempo e que desde a muito que não nos víamos.
-Sim, já algum tempo, mas isso não quer dizer que sejamos estranhos.
-Claro que não somos. Adiante.
-Então e no trabalho o que se passou?
-Bem isso é a parte difícil. Sabes que eu adoro o que faço e sabes que tenho objectivos de vida e que estou disposto a tudo para os atingir.
-Sim, e eu concordo com a tua ideologia, bem sabes. Mas não percebo o que isso tem assim de tão complicado.
-O complicado vem agora. Hoje na hora de almoço foi obrigado a almoçar com o patrão e ele propôs-me mudanças.
-Não me digas que a crise já chegou á empresa.
-Não, eu também pensei nisso inicialmente, mas a ideia dele era diferente.
-Epah desembucha.
-Eu vou ser directo. Ele quer que eu vá gerir um novo gabinete programação.
-Mas isso é óptimo, é o teu objectivo não é!
-Sim mas não estava a espera disso tão cedo.
-Melhor ainda, é sinal que eles te valorizam.
-Sim eu sei, mas o problema é que eu ainda não te contei tudo.
-Mais?!
-Sim, o grande problema desta proposta é a deslocação.
-Deslocação?! Para onde.
-Seul, Coreia
-Mas isso é do outro lado do mundo.
-Sim é. A Coreia está a evoluir muito na electrónica e a empresa achou que seria benéfico trabalhar perto deles, afinal de contas eles precisão de nós. Então fizeram uma parceria e vão abrir um novo gabinete lá.
-Sim compreendo. Mas …
-Eu ainda não tomei nenhuma decisão mas a proposta é tentadora, além do mais tenho pouco que me prenda cá.
-Então e eu?! Interrogou ela aumentando o tom e com um brilho diferente nos olhos.
-Tu…
-Nós ainda somos casados, não podes ir assim embora.
-Sim eu não me esqueço disso, muito menos tencionava ir sem te consultar, mas como sabes saíste de casa quase a três semanas e nunca mais falamos.
-Sim eu sei, mas precisava de tempo.
-Precisavas tu mas eu não, de passar pelo que passei.
-Desculpa mas só percebi que me fazias falta depois de te deixar, tenho andado a ganhar coragem para to dizer.
-Três semanas é muito tempo, não sabes o que passei.
-Pois não sei, mas eu também passei por muito e não quero continuar assim, por isso vim cá hoje.
-Vieste cá mas isso não resolve nada, muito menos nesta situação agora.
-Mas eu preciso de ti, não podes ir agora embora.
-Eu também preciso de ti tal como precisei de ti nestas ultimas semanas, mas todo este tempo fez-me pensar que devo seguir aquilo que sempre ambicionei.
-Então já tomaste a tua decisão!
-Não mas vou tomar e a Coreia parece-me bom para um novo começo.
-Está bem podes ir!
-Posso?! Assim?! Não me vais tentar fazer mudar de ideias?!
-Não, tenho só uma condição.
-Diz lá.
-Se vais eu também vou, e isto não é opcional!

FIM
by M.

24 novembro, 2011

Vidas parte9

Nisto mais de uma hora havia passado e eu estava agora consumido pela ideia de poder abraçar um projecto que sempre sonhei e enquanto isso eu não pensava em nada mais.
Voltei de novo ao meu mundo esquecendo tudo o resto mas desta feita nem este me conseguia prender a atenção, aquela notícia era boa demais para me fazer esquecer nem que pelos breves momentos, no entanto o meu trabalho está acima de tudo e se aqui cheguei foi pelo facto de sempre me emprenhar e nem mesmo naquele momento eu tinha uma justificação plausível para não fazer aquilo que me compete e abstrai-me de todo aquele encanto e comecei aquilo que faço melhor.
A tarde passou e eu só regressei á realidade já a noite tinha caído e estava agora exausto mas como sempre feliz, afinal de contas não é todos os dias que se faz aquilo de que mais se gosta.
Preparei-me para abandonar a empresa e meter pés ao caminho, a minha casa era o meu destino mas o caminho que tinha de percorrer era ainda um desafio para a minha mente que iria sem duvida penetrar-se no assunto do dia.
Enquanto percorria o caminho de sempre, quase de olhos fechados, e eu tinha muito para avaliar, entre vantagens e desvantagens eu não poderia tomar uma decisão sem pensar em tudo isso.
Dizem muitas vezes que a melhor maneira de resolver os problemas é fugir de perto deles e se antes eu discordava com essa resolução dos problemas eu estava agora preparado para fazer o mesmo, depois do que se tinha tornado a minha vida eu estava disposto a deixar tudo para trás e correr atrás de um outro sonho.
Não tardei a chegar a casa, aproximo-me da porta e insiro a chave, rodo-a esperando um mundo igual ao de sempre, mas algo estava diferente, ao abrir calmamente aquela porta eu foi inundado por uma luz imensa e de repente pensei, bolas, esqueci-me de apagar as luzes, mas esse pensamento foi interrompido por uma visão diferente do normal, uns sapatos de mulher mesmo á porta algo que não é por habito meu ter e pensei para comigo, há aqui algo que não está bem, e nesse momento percebi tudo quando uma bela mulher aparece na porta da sala.
-O que estás aqui a fazer? Perguntei.
-Combinamos encontrarmo-nos aqui! Lembras-te?!
-Sim claro que sim, mas era só as oito e meia! – Tinha-me esquecido completamente disso mas nada justificava ela estar lá em casa.
-Sim combinamos mas eu pensei que podia fazer o jantar e como ainda tenho a chave cá de casa resolvi fazer-te uma surpresa.
-Humm, está bem, mas podias ter-me perguntado primeiro.
-Mas assim deixava de ser surpresa.
-Como queiras. Já fizeste o jantar? Estou cheio de fome e tenho uma coisa para te contar.

by M.

22 novembro, 2011

Vidas parte8

-Sim, hoje tem companhia para almoço – disse ela do outro lado do balcão.
Sem qualquer alternativa de fuga, aceitei prontamente aquele cenário sem saber ainda quem seria a minha companhia. Momentos depois um grupo de indivíduos vem na minha direcção, mas aparentemente todos desconhecidos á excepção do patrão e este não tarda a direccionar o seu olhar na minha direcção acompanhado de algumas palavras.
- P. Vens connosco almoçar, temos uns assuntos importantes para tratar e preciso de uma opinião.
-Sem pestanejar aceitei – pensado bem, eu não tinha nada melhor para fazer naquelas horas mortas, se não acompanhar a minha solidão.
Obviamente eu sabia que seria uma reunião de negócios, pois a restante companhia apresentava-se de fato e gravata e a característica mala na mão, contudo eu não sabia o intuito de eu ser o chamado, pois em caso algo, eu fora chamado anteriormente. Com todas estas questões a viajar na minha cabeça eu começava a sentir-me curioso e aguardava por uma explicação plausível.
Deixamos a empresa e pouco depois estávamos já sentados nos dos melhores restaurantes da cidade e dei por mim a pensar que efectivamente aquela reunião tinha um objectivo e eu começava a sentir medo por esse mesmo.
A conversa começou sem muito formalismo mas a seu tempo começou a mudar de tema, tinha-mos nós já acabado de a refeição e agora já acompanhados por um whisky em cima da mesa a fazer jus á minha imaginação de reunião de negócios.
-P. eu sei que trabalhas connosco á relativamente pouco tempo, no então teremos de fazer alterações na tua carreira.
Dito isto, eu paralisei e foi como se alguma palavra tivesse fugido daquela frase pois não fazia sentido, eu sempre fora um colaborador importante e não previa isto, e nisto questionei-me se seria a possível que a mudança recente da minha vida que fizera com que o meu rendimento não fosse suficiente, no entanto mantive o sangue frio e questionei.
-Alterações? Como assim?
-Não me interpretes mal P., tu sabes que és um membro importante e sabes o valor que tens naquilo que fazemos.
-Sim eu sei, por isso é que me está a confundir, o que pretende afinal?
-Embora tu sejas uma peça importante aqui na empresa, nós vamos ter de abdicar de ti.
O meu mundo desmoronou-se e o sonho de uma vida, da minha vida, foi atrás.
-Calma P., isto não é um despedimento.
Aquelas palavras pouco ou nada amenizaram aquilo que sentia, mas ele continuou.
-Estas pessoas que estão aqui connosco fazem agora parte da empresa, são novos investidores para uma nova filial em que estamos a trabalhar, e precisamos de alguém como tu para liderar esse projecto.
Agora tudo fazia sentido na minha cabeça mas eu continuava sem pronunciar uma palavra pois eu sabia que toda aquela operação de charme não era uma simples deslocação de trabalho.
-Bom, não vale a pena estar com muitos rodeios, nós queremos que tu sejas o gestor de programação do novo projecto e vais ter a teu cargo alguns bons programadores, no entanto esta proposta tem um senão.
Todas as palavras ditas por ele me deixaram encantado e tornar-me gestor era o que ambicionava á muito, no entanto eu não esperava que fosse tão cedo, e começava a imaginar uma nova vida esquecendo a sua última palavra, no entanto ele fez questão de me chamar á realidade.
-O senão desta proposta é que a nova filial é na Coreia, mais propriamente Seul na Coreia do norte.
Fiquem sem palavras. Mas a proposta não me desagradava, no entanto esta é uma decisão que tenho de tomar comigo próprio. E foi o que sugeri.
-Preciso de pensar nisso, não posso aceitar assim.
-Claro que sim, estás a vontade, dá a tua resposta assim que te decidas.
-Assim o farei – respondi, começando já a orientar as minhas ideias, mas numa coisa eu teria de concordar, esta oportunidade não poderia ter vindo em melhor altura atendendo á minha recente mudança de vida.

by M.

21 novembro, 2011

Vidas parte7

Tento entrosar-me com o mundo profissional e preencher a minha cabeça com pensamentos úteis e necessários.
Depois de um grande esforço e de algumas tentativas falhadas com vista a iniciar definitivamente o trabalho por aquele dia, consigo alguma concentração para a realizar a minha vontade. O problema era começar, pois sabia que depois de entrar dentro de todo aquele esquema eu conseguiria abstrair-me de tudo o resto.
Não tardei a entrar no meu mundo, aquele que me fascina e pelo qual sempre lutei toda a minha vida.
A informática sempre foi aquilo que mais ambicionei e o sonho pelo qual percorri, era a única alternativa para a minha vida. Mas nem tudo foram mares de rosas, tive de ultrapassar muitos obstáculos até conseguir aquilo que sempre desejei, mas sempre me desembaracei de todos eles, no entanto este momentos que vivia era um dos mais difíceis, talvez pela sua actualidade mas não só.
A minha vida nos últimos dias tinha-se desmoronado e conciliar o grande vazio interior com aquilo que mais gosto de fazer era um grande desafio mas o qual estava disposto a ultrapassar pois o que mais queria acima de tudo era a minha felicidade profissional e conquistar o meu sonho.
A programação não é uma dificuldade, pelo menos para mim, mas isso não significa que eu posso estar ausente de pensamento enquanto a executo e aquilo que menos queria era deitar fora o trabalho de uma vida de esforço.
Enclausurado naquele mundo apenas meu, eu sentia que nada mais me afectava e aqueles problemas estavam atrás da cadeira em que me sentava.
Não tardou até ser interrompido para o almoço, aquelas horas da manhã tinham passado mais uma vez a voar e estava agora na hora de almoço e de deixar de novo o eu mundo e ser absorvido pelos problema da minha vida pessoal.
Ao contrário do que havia dito aquela bela mulher, eu não tinha nada planeado para o almoço e ninguém me aguardava para o almoço a não ser a solidão dos últimos dias que eu tinha a certeza que me iria procurar.
Preparo-me para sair e abandono aquela cadeira mágica que me transporta por mundos distantes. Na saída do edifício uma voz chama por mim, uma voz feminina mas não tão jovial nem terna como a que me abordara de manhã cedo, viro-me na sua direcção enquanto esta me diz.
-Senhor P. não saia já, pediram-me para o impedir de sair já, se não se importa aguarde aqui um momento que eu vou informar que já aqui está – pegando no telefone.
-Senhor ele já aqui está – disse ela para alguém do outro lado e seguidamente desliga o telefone dirigindo-se para mim.
-Só um momento a sua companhia para almoço já aí vem.
-Companhia para almoço?! Retorqui!

by M.

20 novembro, 2011

Vidas parte6

Por momentos ignorei aquele ruído que se fazia ouvir estridentemente mas depois percebi que este procurava pela minha atenção, procurei o dito objecto por entre os papeis acumulados na minha secretária, enquanto que este não perdia um segundo para chamar a atenção de todos no escritório.
Sem sequer olhar para o monitor aceito a chamada com o receio de que esta seja terminada.
-Sim, bom dia.
-Bom dia? – Questionou uma voz feminina do outro lado.
-Com quem falo? – Perguntei.
-Acabamos de tomar café juntos, já não se diz bom dia.
- Não sabia que eras tu.
-Não me digas que já não tens o meu número.
-Tenho, claro que tenho – confirmando visualmente no monitor – mas como demorei a atender nem vi quem era para não perder tempo.
-Ah ok, estás desculpado!
-Desculpado?! Mas eu não pedi desculpa.
-Não sejas tão rigoroso. Olha estou a ligar-te porque te esqueceste do teu caderno comigo.
-Esqueci?
-Sim. Chama-se a isso, fugir a sete pés de uma mulher.
-Oh, nada disso, estava mesmo com pressa.
-Não faz mal.
-Então como fazemos?
-Fazemos? Como assim?
-Para me devolveres o caderno, faz-me falta.
-Ah sim, estava distraída. Olha podemos almo… - interrompo-a.
-Não posso já tenho coisas combinadas não dá.
Nesse momento fez-se luz na minha cabeça. Agora percebera o que se havia passado. Eu nunca me esqueço de nada que esteja á minha vista, pensei, portanto ela fez de propósito para que eu me esquecesse, sabe muito ela. O meu pensamento foi interrompido.
-Continuas aí?
-Sim, sim estou.
-Deixaste de responder, pensei que não o querias de volta.
-Sim quero, mas é que hoje estou muito ocupado, só saio do trabalho as oito da noite.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa ela, com um tom afirmativo, disse.
-Por mim está perfeito, posso lá em casa as oito e meia para to devolver.
Procuro uma desculpa para evitar tal contacto, mas não encontro fuga possível, tenho de concordar.
-Pronto pode ser.
-Então até logo.
-Até logo – e desliguei. Enquanto a última peça acabava de se encaixar no puzzle.
Ela fez mesmo de propósito, por isso se despediu com um até logo, no café.
Devolvo o telemóvel á secretária repleta de papéis e procuro uma ponta por onde começar, no entanto aquela chamada ainda não tinha terminado na minha cabeça.

by M.